Encerramento de ano com premiação

Fecho o ano de 2021 com mais um prêmio na carreira literária.
Segunda colocação na categoria Contos do Concurso Relâmpago de Natal no Wattpad (user @LivroDourado01)



PORTO DAS PÉROLAS
L. H. Lourenço



Conheci John na adolescência, na cidade de Natal, onde nasci. Seu pai viera morar temporariamente no Brasil em missão militar. Estudávamos juntos e como eu falava inglês fluentemente, nosso entrosamento se deu de imediato no seu primeiro dia de aula. A amizade extrapolou os portões do colégio e com ele vivi os momentos mais marcantes da juventude. Éramos parceiros de aventuras e desbravávamos locais não explorados… como os nossos corpos. Desabrochei em seus braços nas areias brancas do estado norte riograndense.

Nossos sonhos, entretanto, foram interrompidos… John regressara ao seu país e eu…
Restaram-me algumas fotos e a promessa de que voltaria para mim.A árvore fertilizada deu um fruto que John desconhecia. Muitas cartas nunca enviadas. A essência dele era embalada em meus braços ao som da canção de Billie Holiday…
Blue moon (Lua azul)
You saw me standing alone (Você me viu sozinha)
Without a dream in my heart (Sem um sonho em meu coração)
Without a love of my own (Sem amor só para mim).

A vida sempre surpreende.
Três anos depois…

Na praia, com o sol poente a tanger o céu em uma mescla de tons, eu observava o anjinho de cachos loiros tentando reter em suas mãozinhas a areia fina que escapulia entre seus dedos e o fazia gargalhar.
Os olhos, o sorriso, os traços semelhantes… havia pouco de mim naquele pedacinho de gente. Era a foto mais linda que John me deixara.
Entretida em lembranças, minha vista vagueava pelo horizonte infinito onde a paz parecia fazer morada. O movimento local era apenas de alguns pescadores que arrumavam suas redes e limpavam seus barcos para partirem de madrugada em busca do sustento para suas famílias.
Uma figura se destacou entre os nativos da região e meu coração errou uma batida. A razão não deu crédito ao que a intuição já dizia… John!
Ele caminhava lentamente em minha direção. Sua luz sobrepunha aos últimos vestígios do sol que mergulhava no oceano alaranjado ao fundo, trazendo uma nova expectativa para meu mundo.

Nossa união se deu no mesmo ano e minha vida tomou outro rumo. Recém-casada e com um bebê, num novo país, distante do meu povo.

Seis meses, apenas míseros cento e oitenta dias, foi o tempo que tivemos depois que chegamos em nosso lar, em Norman, estado de Oklahoma, nos Estados Unidos. A maldita guerra, a eterna disputa gananciosa pelo poder o afastara de mim novamente.

Era março de 1941. John havia sido convocado a servir em Pearl Harbor ou Porto das Pérolas, uma base naval e quartel-general da frota norte-americana na Ilha de O’Ahu, próximo a Honolulu no Havaí.
Ele se fora em uma manhã chuvosa e fria. Acariciou os cabelos do filho adormecido, jogou a bolinha para nosso cão como sempre fazia e beijou-me fervorosamente. Seu semblante não combinava com as palavras tranquilizadoras que me dizia. Enxugou mais uma vez minhas lágrimas, colocou o quepe e saiu.

De dentro do carro, acenou para mim uma última vez. Mais de seis mil quilômetros de distância nos separariam. Nossa conexão era por cartas semanais que dilaceravam minha alma pela sua ausência. Os homens criaram o conflito e as mulheres sofriam as consequências.

Sozinha em um país estranho, com um filho pequeno e a incerteza do retorno daquele que provia não só o nosso sustento, mas também o alimento da minha alma. Decidida a não me deixar abater, coloquei em prática meus dotes culinários da cozinha nordestina para preencher meu tempo e meus bolsos com uma renda extra.
A solidariedade feminina se fazia presente quando tudo o que nos restava era uma longa e indeterminada espera. Vez ou outra éramos assombradas por visitas fardadas na casa de alguém, seguidas de choros e gritos de lamentação. A vida de tantos ceifada por motivos tão torpes, desestruturando famílias, abrindo cicatrizes que deixariam marcas para sempre.
Os rádios eram a fonte confiável que nos conectava aos acontecimentos e estes aparelhos estavam presentes no cotidiano de cada moradia. A Segunda Guerra Mundial envolvia a maioria das nações, organizadas em alianças militares opostas – aliados e inimigos. Constatava tristemente que, Jesus viera ao mundo para ensinar os homens a amarem uns aos outros. Tanto tempo depois e ninguém ainda aprendera a lição.

Nove meses haviam se passado desde a partida de John para Pearl Harbor. Meu andar era dificultado pelos pés inchados e pelo peso que carregava.
Mais um rebento que em breve viria ao mundo sem a presença do pai.
Nas cartas que enviava para John, escondia nas entrelinhas toda a aflição que eu vivia. Narrava apenas as situações boas e renovava a esperança dele estar presente na hora do parto. Reescrevia as folhas diversas vezes para não enviar papéis molhados com minhas lágrimas. Ele já sofria demais, desnecessário atormentá-lo com assuntos que estavam fora da sua alçada.

Em novembro de 1941, veio à luz uma menina robusta e com potentes pulmões. Entre tantos desconcertos, ela era a razão para me manter na luta. John havia conseguido uma licença para poder estar conosco e conhecer a filha recém-nascida. Sua chegada estava programada para meados de dezembro e passaríamos o Natal juntos, em família.

Amanhecera nevando. Primeira semana de dezembro e John chegaria em breve. Meu menino dormia um sono tranquilo na minha cama. Observei pela janela os flocos de neve descendo do céu com intensidade e o branco se acumulando aqui embaixo. Um cenário de beleza melancólica. Ansiava pelo sol da minha terra. Aqui, o calor era fruto de um aquecedor. Visto meu casaco de lã pesado e vou para a cozinha preparar o café. Em poucos minutos a bebezinha acordaria chorando de fome.

Liguei o rádio e meu mundo desabou.
No início daquela manhã, 07 de dezembro de 1941, a base naval de Pearl Harbor havia sofrido um ataque. Ainda não tinha sido contabilizado o número de mortos e feridos. Noticiava-se que as baixas ultrapassariam a casa de dois mil entre militares e civis. O local fora atacado de surpresa por mais de trezentos aviões japoneses e todos os oito navios de guerra da Marinha dos Estados Unidos foram danificados e quatro afundados. O presidente americano havia declarado guerra ao Japão.
A árvore de Natal desse ano foi decorada com gotas de minhas lágrimas e com uma carta oficial lamentando a não identificação do corpo de meu marido entre os destroços. John constava como desaparecido. Em mim, a dor do inevitável guerreava com a esperança de um milagre.

Os meses transcorriam lentos como um inverno que parecia não ter fim. O tempo não amenizou a dor e a saudade era como uma ferida que sangrava. A confiança no regresso de John minava um pouco a cada dia. Os militares não encerravam o processo, então, extraoficialmente eu era viúva. Não poderia enterrar meu marido e a dúvida sobre o ocorrido seria para sempre um pesadelo. Meus filhos eram as molas propulsoras que me faziam seguir em frente.

O clima sentenciava a passagem do tempo … desgelo, flores, sol tórrido, folhas secas e a neve voltara a cair…

7 de dezembro de 1942
Folheio por incontáveis vezes o álbum de fotografia sentada na colcha de retalhos que forra a cama de casal. A memória nos prega peças com o correr dos anos e aqueles momentos ali eternizados se tornam um elo entre o passado e o presente.
Seguro o porta retrato que enfeita a mesa de cabeceira do nosso quarto. A foto mais bonita do nosso casamento. John estava muito elegante em seu traje de fuzileiro naval de mãos dadas comigo e com nosso filho em seu colo usando o quepe do pai na cabeça. Aqueles sorrisos refletiam toda a esperança de uma vida longa e feliz.

Tantas histórias para recordar… meus olhos se tornam turvos a cada página que viro.
O trágico evento de Pearl Harbor comemorava um ano. A crueldade sem precedentes alterou a segurança e o conforto da vida cotidiana americana e ceifou a vida de muito dos nossos entes queridos. O planeta continuava em um infindável conflito.
Funerais tornaram-se mais frequentes, deixando dizimados os corações de milhares de famílias. Acompanhei amigos ao cemitério. Chorava com eles pelos seus mortos. Depositei flores para John aos pés de um olmo ressequido pelo frio. Retornei para casa onde as crianças aguardavam a montagem da árvore natalina. A menina completou seu primeiro aniversário e já balbuciava algumas palavras. A cada enfeite que colocava no grande pinheiro alojado na sala, exclamações de genuína alegria eram ouvidas. O espírito de Natal renovava a fé em dias melhores.

Com as pequenas luzes do pisca-pisca acesas, a lenha queimando na lareira, meus filhos esparramados no chão brincando com nosso cão, consegui sentir paz no meu coração. Sabia que John, onde estivesse, sentiria todo o amor que dedicávamos a ele. Sentei-me na poltrona que ele mais gostava com uma xícara de chá fumegante. A noite avançava com uma forte nevasca. Coloquei as crianças para dormir em minha cama, agasalhei-me mais e voltei para a sala. O frio estava congelante, mas o cão precisava sair para se aliviar. Ao abrir a porta, uma lufada de vento gelado fez com que fechasse meus olhos. Naquele instante, senti a presença de John. Os latidos desesperados do cão me deram a certeza de que não era um sonho. John havia voltado.

Original faz parte do livro Todos os Contos que Conto, publicado no Wattpad.

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